Senador afirma que intermediários negociam a destinação de recursos públicos, critica o uso das emendas como moeda de troca e diz que a prática prejudica a qualidade da política brasileira.
O senador Jaques Wagner (PT-BA) fez duras críticas ao uso das emendas parlamentares e afirmou que a destinação de recursos públicos se tornou parte de uma dinâmica de negociação política que, na avaliação dele, compromete a democracia. Em entrevista à Rádio Sociedade da Bahia, nesta terça-feira (13), o petista disse que há intermediários em Brasília que atuam na articulação de emendas e questionou a possibilidade de recursos serem negociados em troca de vantagens.
“Adelson, hoje tem despachante de emenda trabalhando em Brasília”, afirmou o senador durante a entrevista.
Ao explicar o que chamou de “despachante de emenda”, Wagner descreveu uma suposta prática em que um intermediário recebe a indicação de uma emenda, cobra ou retém determinado valor e busca um prefeito ou uma prefeitura para receber os recursos.
“Você me dê cá a sua emenda, eu lhe retorno um determinado valor e eu vou arrumar um prefeito ou uma prefeitura para levar esse dinheiro”, declarou.
O senador não citou nomes nem apresentou, no trecho da entrevista, documentos que comprovem um caso específico. A fala foi apresentada como uma crítica à dinâmica que, segundo ele, se estabeleceu em torno da destinação de emendas parlamentares.
“A política virou isso, virou emenda”
Wagner afirmou que o debate sobre corrupção precisa considerar a utilização de dinheiro público e criticou o que considera uma transformação da atividade política em uma negociação de recursos.
“As pessoas falam tanto em corrupção, então tem que saber de onde é que ela vem. Vem muitas vezes com dinheiro público”, disse.
Na avaliação do senador, as emendas parlamentares passaram a funcionar como instrumento de troca, deixando em segundo plano a discussão de propostas e ideias entre representantes políticos e eleitores.
“E as emendas acabaram sendo uma moeda de troca que botou a política no balcão do negócio”, afirmou.
O petista comparou o cenário atual com sua experiência política em períodos anteriores. Segundo ele, as conversas sobre posicionamentos e projetos perderam espaço para a discussão sobre a liberação de recursos.
“No meu tempo, você chegava no interior e discutia política, o cara concordava com o seu ponto de vista, ‘não, eu vou lhe apoiar, tal’. Hoje em dia, quando você vai trazer de emenda?”, questionou.
Senador faz alerta sobre a democracia
Ao criticar o modelo que descreveu, Wagner afirmou que a prática representa um risco para o funcionamento da democracia brasileira.
“Então, se quiser viver na hipocrisia, tudo bem. A democracia brasileira vai indo para o saco”, declarou.
O senador também ressaltou que sua crítica não se limita a um campo ideológico e disse que pessoas de diferentes posições políticas deveriam discutir o tema.
“Isso eu estou falando não é porque eu sou de esquerda, não. É de esquerda, de centro, de direita. O cara que tem bom senso sabe que a política virou isso, virou emenda”, afirmou.
Ao concluir o raciocínio, Wagner avaliou que o protagonismo das emendas nas negociações políticas contribuiu para uma perda de qualidade na atividade parlamentar.
“Na minha opinião, nós perdemos qualidade”, disse.