A articulação política envolvendo a indicação da ex-prefeita Márcia Sá Telles para um cargo estratégico na Codevasf, no Oeste baiano, provocou uma crise interna no PT da região. Lideranças municipais do partido reagiram publicamente contra a movimentação atribuída ao ex-ministro e pré-candidato ao Senado Rui Costa, apontando incoerência política e risco de desgaste às vésperas do ciclo eleitoral de 2026.
Em carta aberta, diretórios do PT classificaram a possível nomeação como inaceitável, destacando que Márcia esteve em campo oposto nas eleições de 2022, quando apoiou ACM Neto contra o atual governador Jerônimo Rodrigues. No documento, os dirigentes afirmam não compreender “a iniciativa de nomear alguém para um dos mais importantes órgãos do Governo Federal cuja trajetória política é contrária ao projeto que hoje conduz o Brasil, liderado pelo presidente Lula”.
Os petistas também alertam que a decisão pode trazer impactos políticos na região. Segundo a carta, a indicação “tende a fragilizar a estabilidade política tanto na Codevasf quanto em toda a região”, especialmente em um momento de reorganização das forças políticas para as eleições futuras.
A posição de Márcia Sá Telles nas eleições passadas é um dos principais pontos de tensão. Em 2022, ela rompeu com a base governista e declarou apoio a ACM Neto e ao então candidato ao Senado Cacá Leão. Na época, justificou a decisão com críticas à gestão estadual, alegando dificuldades para conseguir investimentos para Cotegipe durante sua administração.
“Logo, a realidade foi escancarada. Comecei a buscar emendas, bati em várias portas de deputados. Uma jornada difícil. Meu município tinha caído no descrédito”, afirmou à época. Ela também destacou o apoio recebido por aliados políticos fora da base estadual: “No gabinete do deputado federal Cacá Leão, Deus sorriu pra mim. A partir daí, Cotegipe começou a ser transformado”.
A ex-prefeita reforçou que sua escolha eleitoral foi motivada por gratidão e sentimento de abandono. “O ano agora é 2022, ano de eleição, ano em que ‘meus anjos’ precisam da gente. No meu coração, cheio de gratidão, eu não consigo ir por outro caminho que não seja o do apoio incondicional a quem me ajudou quando eu mais precisei”, declarou.
Nos bastidores, a indicação é atribuída à articulação de Rui Costa, o que ampliou o desconforto entre aliados. A nomeação para a 2ª Superintendência Regional da Codevasf, considerada estratégica na região do Oeste, também envolve conexões políticas locais — como o fato de Márcia ser irmã de Fernanda Sá Teles, que ocupa cargo na Secretaria de Agricultura da Bahia.
Diante da repercussão, o episódio expõe divisões internas no PT baiano e levanta questionamentos sobre alianças políticas e critérios para ocupação de cargos federais em um cenário pré-eleitoral.