Autoridades do 1º escalão disputam indicação de Bolsonaro ao STF

Com sinais dúbios e declarações conflitantes sobre quem pretende indicar para a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) que abre em novembro, com a aposentadoria do decano Celso de Mello, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) convive em seu ministério com três fortes candidatos: os ministros Sergio Moro, da Justiça e Segurança Pública; Jorge Oliveira, da Secretaria-Geral da Presidência; e André Mendonça, da Advocacia-Geral da União. Dependendo do momento político, um nome fica em maior evidência ou cai, movimento que deverá se manter até o fim do prazo na opinião de políticos e pesquisadores ouvidos pela reportagem.

Atualmente, o nome de Moro voltou a ganhar força, como resultado da vitória do ex-juiz na queda de braço sobre a divisão ou não do Ministério da Justiça e Segurança Pública. “Moro é o personagem central nessa questão. Bolsonaro mostra que o considera um possível adversário político e quer neutralizá-lo, mas ainda não encontrou um jeito de fazer isso”, avalia o cientista político Leon Victor de Queiroz Barbosa, pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco.

“Sempre ficou claro que o presidente atraiu Moro para o governo tendo a vaga no STF como garantia, porque ele abriu mão da carreira na magistratura. O momento em que ele será indicado é que ficou nebuloso, mas os ventos são favoráveis agora, porque a ala da direita descontente com Bolsonaro, os lavajatistas, poderá apostar forte numa candidatura de Moro à Presidência se ele for, além de desidratado, preterido”, avalia ainda o pesquisador, que trabalha com foco em estudos jurídicos e ligados ao STF.

O próprio Moro, que costuma evitar o assunto da indicação, passou a dizer: “A perspectiva pode ser interessante e natural na minha carreira. Eu venho da magistratura, né?”.

A ascensão de Moro nas “bolsas de apostas” rebaixa – momentaneamente – as chances de Jorge Oliveira. O nome do secretário-geral da Presidência começou a ser citado nos últimos meses à medida que cresceu a confiança do presidente no ministro, com quem despacha diariamente.

Como mostra a postagem abaixo, do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, o grande trunfo de Oliveira na corrida ao Supremo é sua lealdade ao chefe. A relação dele, que é major da reserva da Polícia Militar do DF, com os Bolsonaros é longa e precedida por seu pai, o capitão do Exército Jorge de Oliveira Francisco, que foi chefe de gabinete de Jair Bolsonaro por duas décadas.

Jorge Oliveira também trabalhou no gabinete de Bolsonaro pai e foi chefe de gabinete de Eduardo, de quem é amigo pessoal.

Contra Oliveira, pesa a pouca experiência jurídica: ele é advogado com carteirinha da OAB há apenas seis anos. “E a resistência do mundo jurídico a essa inexperiência é algo que pesa. Aconteceu com o Dias Toffoli, apesar de ele ter conseguido a vaga. Mas é algo que vai marcar sempre a atuação dele, não será esquecido”, lembra o professor Barbosa.

“Terrivelmente evangélico”
Correndo por fora, no momento, está o chefe da AGU, André Mendonça, cujo nome não é mais tão citado, mas se encaixa em um perfil que o próprio Bolsonaro defendeu, o de um ministro do Supremo “terrivelmente evangélico”. Falando especificamente de Mendonça, o presidente o classificou inclusive como “terrivelmente supremável“, ainda em meados de 2019.

“Os evangélicos são um grupo muito importante entre os apoiadores do Bolsonaro, e essa fala será relembrada quando chegar a hora da indicação”, aposta o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB), para quem a indicação de Moro deve ficar para a vaga seguinte – que deve ser aberta até julho de 2021, quando o ministro Marco Aurélio atingirá a idade limite de 75 anos.

Oposição da ala olavista
Apesar de contarem com a simpatia do presidente, tanto Mendonça quanto Oliveira enfrentam críticas da ala do governo (e da militância) mais ligada ao professor de filosofia on-line Olavo de Carvalho. Para essa ala, os dois são muito pragmáticos e agem para evitar que o presidente instaure as mudanças profundas que sonham para o país. Essa linha de pensamento fica clara na postagem abaixo, de um dos principais influenciadores digitais da militância bolsonarista:

O ministro Celso de Mello completa 75 anos em 1º de novembro, mas pode tomar a decisão pessoal de deixar a Corte antes disso. Até lá, os ministros de Bolsonaro devem continuar em uma disputa silenciosa pela indicação.

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