Antes sonho, dinamarquês desiste de cobrir Copa 2014

A cobertura da Copa do Mundo de 2014 era um sonho do jornalista
Mikkel Jensen. O dinamarquês desembarcou no Brasil em setembro de 2013 e
passou a acompanhar de perto tudo o que acontecia no “país do futebol”.
Dois meses antes do pontapé inicial, porém, o sonho foi transformado em
pesadelo. Jensen desistiu de cobrir o evento.

O dinamarquês publicou uma carta em seu Facebook (leia abaixo) contando o motivo que o fez desistir de seu sonho.

Segundo Jensen, sua decisão saiu após perceber que muitas crianças
que moram nas ruas estão desaparecendo para construir uma uma imagem
“limpa” nas cidades-sede. Ele citou seu encontro com um menino que lhe
ofereceu um pacote de amendoins.

“Esse cara, que não tem nada, ofereceu a única coisa de valor que
tinha para um gringo que carregava equipamentos de filmagem no valor de
R$ 10.000 e um Master Card no bolso. Inacreditável”, disse.

O preço da Copa do Mundo também foi motivo de reclamação. “Eu não
posso cobrir esse evento depois de saber que o preço da Copa não só é o
mais alto da história em reais – também é um preço que eu estou
convencido incluindo vidas das crianças”, escreveu.

Leia o texto de Mikkel Jensen:

Quase dois anos e meio atrás eu estava sonhando em cobrir a Copa
do Mundo no Brasil. O melhor esporte do mundo em um país maravilhoso. Eu
fiz um plano e fui estudar no Brasil, aprendi Português e estava
preparado para voltar.

Voltei em setembro de 2013. O sonho seria cumprido. Mas hoje, dois
meses antes da festa da Copa eu decidi que não vou continuar aqui. O
sonho se transformou em um pesadelo.

Durante cinco meses fiquei documentando as consequências da Copa.
Existem várias: remoções, forças armadas e PMs nas comunidades,
corrupção, projetos sociais fechando. Eu descobri que todos os projetos e
mudanças são por causa de pessoas como eu – um gringo e também uma
parte da imprensa internacional. Eu sou um cara usado para impressionar.

Em Março, eu estive em Fortaleza para conhecer a cidade mais
violenta a receber um jogo de Copa do Mundo até hoje. Falei com algumas
pessoas que me colocaram em contato com crianças da rua e fiquei sabendo
que algumas estão desaparecidas. Muitas vezes, são mortas quando estão
dormindo a noite em área com muitos turistas. Por quê? Para deixar a
cidade limpa para os gringo e a imprensa internacional? Por causa de
mim?

Em Fortaleza eu encontrei com Allison, 13 anos, que vive nas ruas
da cidade. Um cara com uma vida muito difícil. Ele não tinha nada – só
um pacote de amendoins. Quando nos encontramos ele me ofereceu tudo o
que tinha, ou seja, os amendoins. Esse cara, que não tem nada, ofereceu a
única coisa de valor que tinha para um gringo que carregava
equipamentos de filmagem no valor de R$ 10.000 e uma Master Card no
bolso. Inacreditável.

Mas a vida dele está em perigo por causa de pessoas como eu. Ele
corre o risco de se tornar a próxima vítima da limpeza que acontece na
cidade de Fortaleza.

Eu não posso cobrir esse evento depois de saber que o preço da
Copa não só é o mais alto da historia em reais e centavos – também é um
preço que eu estou convencido incluindo vidas das crianças.

Hoje, vou voltar para Dinamarca e não voltarei para o Brasil.
Minha presença só está contribuindo para um desagradável show do Brasil.
Um show, que eu dois anos e meio atrás estava sonhando em participar,
mas hoje eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para criticar e
focar no preço real da Copa do Mundo do Brasil.

Alguém quer dois ingressos para França – Equador no dia 25 de Junho?

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