Empresas sob suspeita faturaram R$ 31 bilhões com a Petrobras na era PT

Um conjunto de fornecedores, agora sob suspeita, recebeu pelo menos 31,1
bilhões de reais da Petrobras desde 2003 ? ano em que o PT assumiu a
Presidência da República e passou a interferir diretamente na gestão da
estatal. Essas empresas, que incluem as maiores empreiteiras do país,
são consideradas suspeitas de abastecer financeiramente um esquema
montado pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto
Costa e o doleiro Alberto Youssef. Eles são os ‘cabeças’ do esquema
desvendado pela operação Lava-Jato, que encontrou sinais de corrupção
nos contratos da estatal, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

O site de VEJA levantou os contratos fechados pela estatal com 14
fornecedores que, a julgar pelos documentos apreendidos, estão sob
suspeita ou comprovadamente destinaram recursos a empresas controladas
por Youssef. Entre os objetivos cogitados estavam o enriquecimento
ilícito da quadrilha e o financiamento de partidos e políticos, segundo a
PF. Os policiais e procuradores da República encarregados da
investigação possuem especial interesse por aditivos em contratações ?
mecanismo que permite aumentar os valores recebidos sem nova licitação.
Na sexta-feira, a investigação chegou ao gabinete da presidência da
Petrobras, com policiais sendo recebidos pessoalmente pela presidente
Graça Foster, num encontro que resultou no recolhimento de mais de 400
páginas, dois CDs e um pendrive com arquivos referentes a contratos com
fornecedores.

De acordo com as investigações, fornecedores da estatal irrigaram as
contas da MO Consultoria, uma firma em nome de laranjas de Youssef.
Mencionadas em uma planilha apreendida pela polícia, empresas como a
Jaraguá e a Sanko Sider já admitiram que pagaram a essa empresa de
fachada as ?comissões? relatadas no documento. Como revela a edição de
VEJA desta semana, a Polícia Federal descobriu que Paulo Roberto,
Youssef, políticos e prestadores de serviços estão interligados em um
consórcio criminoso montado para fraudar contratos na Petrobras,
enriquecer seus membros e financiar políticos e partidos.

Nessa planilha, fica delineado o caminho dos desvios. O documento
menciona o pagamento de 24,1 milhões de reais pela Sanko Sider,
fornecedora de tubos da Petrobras, em comissões para a MO Consultoria, a
empresa de fachada utilizada por Youssef para movimentar propinas, de
acordo com a suspeita dos investigadores. O melhor contrato fechado
diretamente com a estatal rendeu 2 milhões de reais, após dois aditivos,
pela venda de tubos de aço. A Sanko Sider diz que o incremento foi de
25% do valor inicial, como permite a lei. De outubro de 2011 a agosto de
2013, a empresa conseguiu vender diretamente 2,9 milhões de reais, mas,
além disso, também faturava com vendas para fornecedores da estatal. O
diretor-jurídico da Sanko Sider, Henrique Ferreira, admitiu a VEJA na
última edição que houve o pagamento de tais comissões.

Outra empresa que também reconheceu ter pago para a MO Consultoria, pela
intermediação de contratos com a Petrobras, foi a Jaraguá. Em
entrevista ao jornal O Globo, o presidente-executivo da Jaraguá
Equipamentos, Paulo Roberto Dalmazzo, confirmou que pagou 1,9 milhão de
reais por certa “consultoria de intermediação de negócio”. O grupo
faturou 2,9 bilhões de reais diretamente da estatal entre julho de 2007 e
fevereiro de 2014. Nesse filão, estão serviços prestados para a
construção da refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca. Assinado em abril de
2008, um contrato para elaboração de projeto executivo para fornecimento
de bens, construção civil e montagem elétrica chegou a ter 15 aditivos,
com um custo final de 41,8 milhões de reais. A construção da refinaria
era um projeto sob a responsabilidade de Paulo Roberto Costa, que foi
diretor da estatal de 2003 a 2012. O Tribunal de Contas da União (TCU)
já apontou sinais de superfaturamento nesse empreendimento. A Camargo
Corrêa, que atuou no projeto, também é suspeita de ter contribuído com
7,9 milhões para o esquema de Costa e Youssef, como retribuição por seus
contratos referentes ? refinaria. O consórcio CNCC, do qual a Camargo
Corrêa faz parte, fechou pelo menos dois contratos que somam 4,7 bilhões
de reais com a estatal para a construção dessa unidade de refino.

Na mesma planilha em que são mencionadas contribuições de Jaraguá e
Sanko Sider, há também referência a um pagamento de 3,2 milhões de reais
? empresa de Youssef pelo Consórcio Rnest Edificações, formado por
Engevix Engenharia e Empresa Industrial Técnica (EIT). Esse consórcio
também tem participação na construção da refinaria Abreu e Lima, em
contratos que já chegam a 1 bilhão de reais. Num deles, houve pelo menos
17 aditivos.

Outra empreiteira mencionada na planilha obtida pela PF é a Galvão
Engenharia, com a suposta remessa de 1,5 milhão de reais ao esquema.
Esse grupo fechou 4,4 bilhões de reais em contratos com a Petrobras, de
setembro de 2008 a novembro de 2013. Em um deles, há 25 aditivos. Já a
empreiteira OAS é responsabilizada pelo desembolso de 1,2 milhão de
reais ? empresa de fachada do doleiro. Diretamente, a construtora fechou
um contrato de 184 milhões de reais em novembro de 2013 com a
Petrobras, para construção e montagem de dutos para o Complexo
Petroquímico do estado do Rio de Janeiro (Comperj), outro empreendimento
com indícios de sobrepreço em contratações.

Fornecedoras de menor porte como a Ecoglobal Ambiental também entraram
no foco do inquérito. A Polícia Federal investiga a relação de Costa e
Youssef com a empresa, pela suspeita de que o ex-diretor tenha
articulado a obtenção de contratos milionários com a estatal. Em uma
disputa por carta-convite com gigantes internacionais, a Ecoglobal
faturou um contrato de 443 milhões de reais para realizar testes de poço
de petróleo, uma área na qual não era considerada experiente. Antes
disso, estava habituada a serviços menos custosos e tinha obtido 28,6
milhões de reais da estatal. Em entrevista ao site de VEJA, Vladimir
Silveira, que aparece como sócio-diretor da Ecoglobal, disse que foi
assediado por emissários de Costa e Youssef que tentaram pagar 18
milhões de reais por 75% da empresa. Mas, pela versão de Silveira, a
transação não foi concretizada e ele nega que Costa tenha facilitado a
obtenção de contratos. Mas chamaram atenção dos policiais e-mails em que
emissários de Youssef tratavam de um aditivo de 15% a essa venda, antes
até de o serviço começar a ser prestado.

No material apreendido com o ex-diretor, também há anotações que
contabilizam doações a políticos feitas por fornecedores da Petrobras.
Numa lista, há menções a contribuições de Mendes Júnior, UTC Engenharia,
Engevix, Toyo Setal, Hope e Iesa. Esse grupo recebeu pelo menos 17,3
bilhões de reais em contratos diretos com a Petrobras na administração
petista. Só a Mendes Júnior teve 48 aditivos no projeto de detalhamento,
construção e montagem do terminal aquaviário de Barra do Riacho, em
Aracruz, no Espírito Santo, e o desembolso chegou a 895 milhões de
reais.

Com a revelação da atuação de Costa na Petrobras, também surgiram
denúncias sobre a contratação do genro do ex-diretor pela estatal.
Humberto Sampaio de Mesquita é sócio de uma empresa que, supostamente,
prestou serviços de consultoria para a petrolífera. A Pragmática
Consultoria em Gestão fechou contrato que, com dois aditivos, chegou a
2,5 milhões de reais. A seleção da empresa se deu em dezembro de 2010,
através do sistema de carta-convite. O objetivo era prestar serviços
técnicos especializados para dar suporte a ?atividades de qualificação?.

Bilhões sob suspeita

Empresa? Quanto faturaram? Primeiro contrato? Último contrato?
IESA R$ 5.818.145.695,13 fev/06 dez/13
CNCC R$ 4.754.061.051,84 fev/10 abr/15
GALVÃO R$ 4.453.768.218,24 set/08 nov/13
MENDES JÚNIOR R$ 3.181.884.774,87 mai/07 dez/12
ENGEVIX R$ 3.030.290.821,45 mar/07 dez/11
JARAGUÁ R$ 2.901.701.441,49 jul/07 fev/14
HOPE R$ 2.123.067.413,43 out/05 nov/13
UTC R$ 2.046.094.886,23 set/07 dez/11
TOYO SETAL R$ 1.119.892.019,39 mai/13 set/13
RNEST EDIFICAÇÕES R$ 1.005.399.261,14 abr/09  
ECOGLOBAL R$ 472.463.795,14 ago/09 abr/13
OAS R$ 184.808.001,00 nov/13  
SANKO SIDER R$ 2.990.446,96 out/11 ago/13
PRAGMÁTICA R$ 2.521.003,14 dez/10  
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