O ?jeitinho? que se transforma em tragédia

Santa Maria, cidade localizada na região sul do Brasil, foi alvo de triste tragédia que repercutiu no país e no mundo, na madrugada de domingo (27): o incêndio na boate Kiss, que ocasionou cerca de 235 mortes e 143 feridos até agora, muitos internados em estado grave.

Comovido com as histórias de vítimas e familiares, entre um noticiário e outro, tento compreender a razão para tamanha catástrofe. Mergulhado nessa turbulência de tristeza, fico a me perguntar se o famoso ?jeitinho? tão presente na cultura brasileira foi ? mola propulsora para causar tanta dor, silêncio, saudade e sofrimento em tantas pessoas.

Segundo dados da imprensa, na Kiss, não havia sinal de emergência, exaustores de fumaça, saídas de emergência, splinters, alarme de incêndio, documentação regular, além da falta de equipe treinada para casos de incêndio. Apesar do relatado acima não ser lei ? a legislação para incêndios é decidida pelos estados e municípios, variando em cada local – porém se trata de procedimentos comprovadamente efetivos, mesmo que não obrigatórios em todas as unidades da federação.

Pertencemos a uma cultura onde o limite pode se transpor; ?onde há 10 pessoas, cabe mais uma?, como diz o jargão.  Enfim, onde entre nós, o limite não se limita e esse ?jeitinho? impera. Talvez, essa tragédia teria sido evitada, caso o estabelecimento tivesse cumprido os requisitos mínimos para um ambiente seguro e dentro das regras previstas.

Nos próximos dias, o Brasil concentrará suas energias em encontrar os culpados pela tragédia de Santa Maria. É fundamental, se houver culpados (as investigações apontam), que haja punição. Mas o vazio e a ausência permanecerão na vida de centenas de familiares e amigos que viram sonhos e sorrisos serem interrompidos tão precocemente.

Como diz Antônio Prata, ?se não mudarmos a nossa mentalidade, se não entendermos que as leis são universais, que há procedimentos que precisam ser executados conforme as regras, sem jeitinho, sem gambiarra, em todas as esferas, por todas as pessoas, as tragédias continuarão acontecendo – e a morte é um limite que nós, brasileiros, por mais espertos que nos julguemos, não somos capazes de transgredir?.

Luiz Alves é Relações Públicas. Especialista em Marketing e Branding pela UNIFACS. Trabalha no MBAF Consultores e Advogados nas áreas de Marketing, Gestão e Desenvolvimento. Possui artigos publicados no Observatório da Imprensa, Migalhas e RP em Revista. Escreve, semanalmente, para o Classe Política. Contato: luizalves.rp@gmail.com

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