Antes do julgamento, Bolsonaro se aproxima de candidato negro

Antes do julgamento, Bolsonaro se aproxima de candidato negro

O presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) convocou um amigo militar para uma missão: ajudá-lo a desfazer a associação de sua imagem à discriminação a pessoas negras após numerosas declarações controversas sobre questões raciais nos últimos anos.

O subtenente do Exército Hélio Fernando Barbosa Lopes, 49, é candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro também pelo PSL. Negro, ele lançou sua candidatura com o sobrenome de Jair: Hélio Bolsonaro. Em 2016, quando tentou se eleger vereador em Nova Iguaçu, concorreu sob a alcunha Hélio Negão.

Trata-se de acordo do qual os dois tentam se aproveitar: Hélio quer pegar impulso na popularidade do líder das pesquisas de intenção de voto para presidente sem Lula (PT), e Bolsonaro pode estufar o peito para dizer que é amigo de uma pessoa negra e, portanto, supostamente não poderia ser acusado de ser racista.

A estratégia coincide com a aproximação de julgamento que pode transformar Bolsonaro em réu sob acusação de racismo contra quilombolas e outros grupos sociais.

Na terça-feira (28), a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) deve decidir se aceita a denúncia contra o candidato a presidente.

Bolsonaro foi denunciado em abril pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge, por causa de uma palestra no Clube Hebraica do Rio realizada no ano passado.

A PGR viu ataques a quilombolas na palestra de Bolsonaro: “Eu fui em um quilombola em Eldorado Paulista. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas”. Para Dodge, o político se referiu a essas pessoas como se fossem animais ao utilizar a palavra arroba.

Hélio tem aparecido muito com Bolsonaro em fotos e vídeos publicados em redes sociais, nos quais fica claro o discurso buscado.

“Bolsonaro não é racista, e eu sou a prova disso”, diz Hélio em vídeo recente. “Vamos acabar com essas divisões de classes, de preto contra branco, de rico contra pobre, de homo contra hétero”, afirma Hélio em outro vídeo.

O candidato a deputado também publica fotos nas quais aparece abraçado com o presidenciável e insere legendas irônicas, como “Bolsonaro racista” ou “Bolsonaro com a elite branca opressora”.

Por outro lado, vídeos nos quais Bolsonaro aparece acompanhado de Hélio também contam com comentários controversos, que poderão mais uma vez serem vistos como discriminatórios.

Em vídeo de 18 de agosto, Hélio chama Bolsonaro de “irmão” e ouve como resposta: “Eu nasci antes da hora ou você nasceu depois da hora?”.

Em outro vídeo, de 20 de agosto, Flávio Bolsonaro, filho de Jair e candidato a senador, diz “estou aqui com meu irmão gêmeo, Hélio Negão”, que chama de “nosso candidato”, em referência à família.

“É uma estratégia antiga de reduzir o racismo a uma relação interpessoal. O sujeito demonstra que tem algum tipo de relação afetiva com uma pessoa negra, mas ao mesmo tempo se dirige a todos os negros de maneira depreciativa e é contra todas as pautas da população negra”, diz Silvio Luiz de Almeida, advogado, professor e presidente do Instituto Luiz Gama.

Para Adilson José Moreira, psicólogo e doutor em direito na universidade Harvard (EUA), as piadas são uma forma “socialmente aceita” de expressar ideias racistas.

“A pessoa conta a piada racista, mas depois se protege ao dizer que é só humor. É estratégico para preservar a imagem positiva da pessoa branca”, diz o autor de “O Que É Racismo Recreativo?”, livro que será lançado em novembro.

“Quando um branco diz ‘esse é meu irmão’, rimos pela incongruência, pelo inesperado: como podem ser biologicamente irmãos?”, diz Moreira.

“Há também a valorização social do que é ser branco. Ser branco quer dizer ser moralmente, sexualmente, economicamente superior.

O que faz rir é a ideia do ridículo da situação. Porque obviamente esse branco jamais seria biologicamente irmão desse negro. E jamais estabeleceria um relacionamento de afeto com essa pessoa”, completa.

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